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Gerir conhecimento: Problema actual com reflexos no futuro - in "Semanário Económico" nº 747, 4 de Maio de 2001

Hoje, não basta ter bons edifícios, boas estradas, bons carros, sistemas de informação fáceis de usar e capazes de processar quantidades imensas de dados, ou comunicações rápidas que permitam movimentar rapidamente a informação, é preciso sobretudo dispor da capacidade de usar esses meios e aproveitar exaustivamente a informação sobre as oportunidades de negócio que o mercado oferece.

Não sabemos se existe algum produto onde o conhecimento esteja totalmente ausente. Desde os primórdios da humanidade qualquer instrumento, mesmo o mais simples, teve algo a ver com a capacidade humana de planear e agir para obter um resultado. Thomas A. Stewart um dos autores recentes que escrevem sobre o tema diz que o conhecimento "é o ingrediente principal de tudo o que compramos e vendemos, a matéria-prima com que trabalhamos".

Um pedaço simples de madeira usado para palitar os dentes é um instrumento com vestígios de conhecimento. Foi preciso saber identificar a necessidade desse instrumento, saber escolher a madeira macia para não danificar os dentes, saber dar-lhe a forma mais adequada, saber torná-lo atractivo para ser escolhido no mercado, saber colocá-lo no hipermercado ou na loja, onde alguém o vai comprar. Todas as operações da sua produção integram conhecimento, até chegar ao consumidor final como um instrumento adequado à sua necessidade. Finalmente, será preciso saber acompanhar a evolução da necessidade que levou à criação desse instrumento para o ajustar e fazer com que as pessoas continuem a utilizá-lo como o mais adequado!

A criação de produtos de qualidade exige recursos de qualidade, sobretudo o conhecimento, a competência para integrar esses recursos num instrumento ou num produto ajustado a uma necessidade específica que evolui no tempo e é diferente para cada consumidor. A consciência de que o conhecimento é um factor especial e fundamental para o êxito da empresa leva à tendência para valorizar o conhecimento e para aumentar a importância das pessoas nas organizações. Mas isso não significa que qualquer empregado pode ser utilizado em qualquer função na empresa ou que qualquer empresa pode expandir-se para novos negócios ou locais com êxitos assegurados aumentando o número de pessoas. O conhecimento não é um recurso meramente quantitativo, não basta acrescentar, é preciso colocá-lo em acção no momento e local certos para dar resultados.

Um empregado é avaliado mais pelos resultados que produz do que pela quantidade de operações que desencadeia ou pelo tempo de permanência na empresa. As tarefas repetitivas ficaram a cargo das máquinas na agricultura e na produção industrial. Estas actividades económicas libertaram uma imensidão de gente para outras tarefas onde a competência é mais determinante. O homem passa a ocupar-se de tarefas do domínio qualitativo com maior recurso às suas capacidades intelectuais. O exemplo pode ser visto no advogado que é pago em função da qualidade dos argumentos que usa e dos resultados conhecidos das causas que ganha e não pela quantidade de palavras que utiliza nos julgamentos.

A lista de autores que escrevem sobre conhecimento e defendem a sua importância nas empresas é muito vasta actualmente, sugiro uma visita ao site www.knowkapital.com onde pode encontrar alguns textos em Português, alguma bibliografia recente e uma lista com a maior parte dos sites internet relacionados com o tema da medição do conhecimento na perspectiva de capital produtivo.

Ikujiro Nonaka assinala a importância do conhecimento dizendo que "numa economia onde a única certeza é a incerteza, a única fonte que resta de vantagens competitivas é o conhecimento". A eficácia da decisão e acção na empresa depende dos conhecimentos dos indivíduos que participam nessas decisões e acções. Estar à frente, significa identificar e seleccionar melhores opções, isto é, agir com conhecimento de tudo o que está à volta e das consequências das suas decisões no futuro.

Sabemos que uma organização ou um país pode obter e desenvolver vantagens competitivas se possuir indivíduos mais qualificados. Um economista da Universidade da Califórnia em San Diego, James Rauch, mostrou que para cada ano adicional de educação escolar a produtividade aumenta cerca de 2,8%. Vale a pena perguntar: será possível esperar um futuro economicamente risonho em países onde a educação e a investigação são prioridades secundárias sistematicamente colocadas no fim da lista das preocupações? A viragem e fuga a esse destino pobre parece ser o momento em que os indivíduos decidem aprender individualmente sem esperar pelos apoios dos governos e sem se deixar limitar pelas condições do momento.

Todavia, se em certas áreas é possível desenvolver o conhecimento individualmente, na maior parte de outras áreas é indispensável dispor de um conjunto de meios para investigar que não estão ao alcance dos recursos de um indivíduo isolado. Podemos obter um especialista em direito sem grandes investimentos em meios, mas nunca conseguiremos obter um médico ou um engenheiro sem laboratórios e meios que lhes permitam experimentar.

Ao escrever este texto tive curiosidade em saber o posicionamento estatístico de Portugal entre os 15 países Europeus quanto a investimento em R&D (pesquisa e desenvolvimento), dirigi-me ao site da EUROSTAT (http://epp.eurostat.ec.europa.eu/portal/page/portal/eurostat/home) e tive uma surpresa muito desagradável: Portugal está em último lugar! Além disso tem a maior taxa de abandono escolar no ensino secundário entre os jovens dos 18 aos 24 anos. Certamente não serão necessárias explicações adicionais para entender as consequências deste posicionamento no futuro da produção portuguesa.



É URGENTE ALINHAR A ESTRATÉGIA EMPRESARIAL PELA NOVA ECONOMIA

Há novas características na economia cuja importância não podemos ignorar, apesar de alguns autores dizerem que a economia é imutável porque a lei da oferta e da procura de bens se mantém. A verdade é que a informação e as condições em que a oferta de produtos e a procura deles se desenvolve foi modificada. A lei da oferta e da procura existe, mas as trocas são efectuadas com mais informação e mais rapidez em alguns produtos.

Kevin kelly, na sua obra "New Rules for the New Economy: 10 Radical Strategies for a Connected World", refere que a nova economia tem três características distintas: é global; favorece os bens intangíveis - ideias informação e interacção; e é intensamente interligada. Tais características apontam no sentido do crescimento da importância do conhecimento.

A globalidade é desenvolvida e suportada por fenómenos como as facilidades de comunicar, de deslocar matérias-primas e produtos e ainda pela tendência para a integração das empresas para além das fronteiras e das cores políticas dos países em busca de melhores condições de produção e de colocação dos produtos. O aproveitamento das vantagens de cada zona do globo é efectuado até à exaustão pelas empresas. Certas zonas oferecem mão-de-obra barata, outras oferecem competência técnica, outras disponibilizam-se para adquirir os produtos.

A nova economia favorece os bens intangíveis porque as condições em que se desenvolve aproveitam as vantagens de comunicação e abundância de informação cuja evolução tem sido imparável nos últimos anos.

A nova economia é intensamente interligada porque com tais condições de circulação e de abundância de informação é inevitável uma ligação mais intensa entre os intervenientes na actividade económica. Nascem novos tipos de empresas todos os dias assentes quase exclusivamente em activos intangíveis. Os seus produtos são intangíveis e podem ser distribuídos electronicamente através do "espaço de mercado" pela Internet. Tais meios de distribuição e empresas intensivas em conhecimento com produtos digitais são do terceiro milénio.

O alinhamento estratégico das empresas da actualidade com estas leis da nova economia é indispensável para quem pretenda continuar no mercado e manter as vantagens competitivas de que dispõe.