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A economia do conhecimento - in "Semanário Económico" nº 613, 9 de Outubro de 1998

O conhecimento é algo de que se fala muito actualmente. Conferências, seminários, artigos em revistas da especialidade, livros e publicações na Internet são uma evidência do interesse que este assunto tem vindo a merecer dos teóricos da gestão. É apresentado como o ouro dos mercados actuais. Hoje, não basta ter bons sistemas de informação, capazes de processar quantidades imensas de dados de toda a espécie, nem é suficiente a capacidade para obter informação a partir desse manancial de dados. O que é absolutamente indispensável e valioso é o conhecimento.

Mas o que é o conhecimento? O conhecimento nasce da informação tal como esta nasce dos dados. Está para além da informação, porque esta é entendida como uma mensagem que transporta dados capazes de provocar alteração do conhecimento existente na mente do destinatário. Para ser informação, os dados deverão significar algo para o destinatário. Deverão ter contexto, ser categorizados de forma a poderem ser entendidos em partes, ter cálculo, resultar de análise matemática, estatística ou outra, com correcção de erros, condensação e coerência. Enfim, deverão conter algo capaz de cativar o destinatário. Alguém disse que informação é "a diferença que faz a diferença".

Onde está o conhecimento? Existe sobretudo no cérebro das pessoas, nas organizações, nas práticas, nas rotinas e processos funcionais instituídos e por vezes é vertido em documentos. Mas não basta existir para ser revelado a toda a gente. Só quem disponha de preparação adequada pode identificá-lo no conteúdo desses documentos, nos procedimentos e nos processos funcionais das organizações. Um grande especialista num tema, só pode ser reconhecido por alguém que saiba igualmente muito desse assunto. Um leigo na matéria não será capaz de distinguir a qualidade do especialista.

Nem todas as organizações consideram o conhecimento um factor produtivo determinante para a sua actividade, se estivermos perante uma empresa que produz rádios onde todos os passos da produção de cada unidade estão perfeitamente descritos, o conhecimento está na documentação que explica como se constrói um rádio, mas também estará certamente nas pessoas e na forma como se organizam. A própria estratégia é uma manifestação permanente de conhecimento, na medida em que deverá ser reajustada às modificações do ambiente, de contrário a empresa não sobreviverá.

Uma empresa pode favorecer o enriquecimento do stock de conhecimento preferindo empregar pessoas com capacidades elevadas de aprendizagem e desenvolvendo-as progressivamente. Algumas empresas são autênticas escolas interactivas de aprendizagem contínua.

Imagine uma empresa de consultores cuja missão é apoiar os decisores de outras organizações. Cada profissional desta empresa, aumenta o seu conhecimento à medida que executa as suas funções. Cada novo tipo de negócio que apoia é uma oportunidade de juntar experiência àquela que já possui. Ao mesmo tempo, o seu trabalho torna-se cada vez mais eficaz porque as suas opiniões foram adquiridas e testadas progressivamente com a experiência cimentada e favorecida pela sua capacidade de aprender. Um indivíduo permanentemente disponível para aprender se estiver frequentemente em contacto com oportunidades de adquirir novos saberes, pode transformar-se num elemento valioso.

Qual será então a diferença entre um consultor experiente detentor de uma elevada capacidade e disponibilidade mental para aprender e um consultor igualmente experiente mas sem disponibilidade para aprender? Sem sombra de dúvidas que o primeiro tem um valor nitidamente maior para a empresa. As opiniões que tiver de formular serão inquestionável e progressivamente mais correctas, os clientes beneficiarão com o nível de qualidade assegurado e a empresa poderá facturar mais para se fazer pagar pelo conhecimento disponibilizado, podendo assim melhorar a sua rentabilidade. Por outro lado, o património de conhecimento deste indivíduo será progressivamente melhorado e com ele também o valor potencial da empresa.

Então, se é um factor tão relevante para os lucros e consequentemente para o êxito da empresa no futuro, deveria ser medido e constar do balanço tal como qualquer activo. Alguns autores recomendam esta ideia vivamente. A verdade é que se trata de um factor muito diferente dos tradicionais, é extremamente difícil de medir, não podemos simplesmente pesar a cabeça das pessoas para avaliar quanto conhecimento têm, só podemos identificar o seu potencial através das pistas que eventualmente existam e das actuações dos indivíduos. Mas, cuidado! Não basta ouvir uma pessoa a falar bem, para concluir que se trata de um perito!

A medida da informação é uma tarefa igualmente difícil porque não é fácil avaliar o seu efeito no conhecimento das pessoas. Habitualmente medimos o acesso que é feito aos dados que supostamente serão informação para alguém. Na Internet foram inventados os contadores de acessos para avaliar o interesse das páginas. Em certos casos o autor de um documento é remunerado em função do número de pessoas que o leram. Nem sempre esta é a forma correcta de medir a importância da informação, porque podem existir documentos extremamente importantes e de qualidade irrefutável, mas que poucos lêem porque não conhecem o tema. Os dados são mais fáceis de medir, habitualmente pela sua dimensão em caracteres ou em papel. Os gestores das empresas dizem habitualmente com orgulho: os dados que tratamos diariamente ocupam muitos Gigabytes. Mas trata-se apenas de dados, o que é realmente importante é a sua utilização que os transforma em informação permitindo aumentar o conhecimento daqueles que os usam.

O conhecimento é um factor especialíssimo porque quanto mais se usa mais se tem. Apesar de estar sujeito a desactualização como qualquer activo, cresce com a utilização, é muito diferente de uma máquina que se gasta à medida que é utilizada. Um simples investimento em formação sobre um tema relevante para a empresa, feito numa pessoa com elevado potencial de aprendizagem e de disponibilização para os outros daquilo que aprende pode ser uma iniciativa chave a longo prazo. Este investimento é feito uma única vez e utilizado indefinidamente, com a possibilidade de servir de base catalizadora para a aprendizagem de outros assuntos ou níveis mais elevados do mesmo assunto. Tem um efeito de bola de neve, quanto maior for a superfície, mais neve consegue captar.

É oportuno perguntar: os Portugueses estão individual e colectivamente empenhados no desenvolvimento deste importante factor? Recentemente, fiquei chocado ao saber da descida de Portugal na tabela do Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Descemos dois lugares nesta tabela que mede o analfabetismo, a longevidade das pessoas e o PIB per capita (tudo o que se produz no país dividido pelo número de pessoas). A descida em qualquer tabela que tenha os melhores por cima e os maus por baixo é sempre uma grande tristeza. Segundo este relatório do PNUD a queda deve-se ao analfabetismo. Este aspecto é preocupante! Num país com recursos humanos tão variados como Portugal, tenho muita dificuldade em entender qualquer queda em qualquer tabela deste género.

Há no entanto uma explicação fácil para este facto. Se o conhecimento nasce da investigação, da experiência, os Portugueses não estão a investigar, não estão a experimentar, não estão a aprender como os outros povos. A tal bola de neve tem uma base pequena. A ciência parece que não é o nosso ponto forte, provavelmente gostamos de inventar mas não gostamos de defender e transmitir o que inventamos. Os países desenvolvidos, investigam e defendem as suas invenções de uma forma tão disciplinada que impressiona qualquer autor dos países do fundo da tabela. Entre nós, podemos encontrar facilmente raciocínios do tipo: não vale a pena produzir livros porque toda a gente os vai fotocopiar, não vale a pena investigar porque dificilmente conseguirei vender o resultado da minha investigação, e por aí fora. Para documentar esta ideia, fui à Internet pesquisar sites relativos a patentes. Fiz uma pesquisa com "IBM patent" utilizando o motor de busca AltaVista e obtive 1000000 de referências sobre este assunto em qualquer língua. Pode ver em http://www.ibm.com/Stories/1997/01/future1.html como este tema é tratado. Não tem nada de semelhante com aquilo que fazemos, pois não? Repare que até os pormenores das invenções são publicados (http://www.research.ibm.com/news/detail) porque uma vez divulgados sob um nome a sua propriedade é protegida. A propriedade do conhecimento é valorizada e defendida como a propriedade de qualquer móvel ou imóvel.

Repeti a pesquisa para "patents" em língua Inglesa e obtive 400000 referências. Para "patente" em língua Portuguesa obtive apenas 3268 referências! Pode ter pouco significado, mas se há tanta gente a falar a nossa língua por esse mundo fora, se somos mesmo criativos, é caso para perguntar onde está a evidência daquilo que inventámos e conhecemos?

Este artigo segue de perto as ideias de dois dos autores mais destacados sobre gestão de conhecimento. Se pretende documentar-se e aprofundar o tema leia o livro "Working Knowledge" de Thomas H. Davenport e Laurence Prusak editado pela HBS Press.